Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006

Me_io bilh_ete por favor



Um por favor.

Há muito que não fazia esta viagem. A sensação, senão me falta a memória, é semelhante à da primeira. O desejo de alcançar o destino, a curiosidade nas venturas e desventuras a que possa estar sujeito. Aquele sentimento de descoberta epicamente galopante.


Primeira paragem - MIND THE GAP, PLEASE:
Vejo os sorrisos a correrem como loucos a ver quem ganha. As gargalhadas fintam-se. As melodias almofadadas transportam o ar que respiramos . O céu ganha a forma de um arco-iris infinito. As pessoas, os animais e as coisas todas estão felizes ... É o paraiso.

Segunda paragem - MIND THE GAP, PLEASE:
Tenho uma clara ideia de conhecer aquele pássaro, um pouco irritante inclusivé. O habitual - café e uma garrafa de água das pedras, com adoçante obviamente. Já vi este desenho. Claro que gosto mas ficaria melhor...

Terceira paragem - MIND THE GAP, PLEASE:
MERDA para os degraus... Não bastava chegarem constantemente atrasados como constroiem coisas mal feitas . Anda uma pessoa a vida inteira a pagar, a dar o corpo e a alma; Sim a alma, para ISTO. Só tenho é vontade de desistir. Partir ... e apanhar outro comboio.

Meio bilhete por favor ...

Com as mesmas quatro mãos

Estava com a companhia amiga do costume. A noite aparentava ser como tantas outras, mas algo de diferente se passava - vejo-o agora com os mesmos olhos que não o reconheceram então.
No meio de quentes gargalhadas, cálidas piadas e fogosos olhares, foi um gélido ar que nos estimulou a necessidade de acender uma fogueira. Com um incontrolável instinto de sobrevivência, rapidamente procurámos um local arenoso e tranquilo para nos aquecermos sem o perigo de incendiar campos amigos.
Quatro mãos em sintonia excitaram o flamejante fósforo e depressa criaram um lume estranhamente belo. Não nos chegou o carvão de minas distantes nem a madeira de árvores desconhecidas; pegámos em cartas de amor recentes, lenços de papel embebidos de desilusões, jornais diários com “gordas” de aviso, até no laço de amizade e, cegamente, lançámos a roupa que nos impedia de estar nus para avivar ainda mais aquele belo clarão. O fogo era extasiante.
Estalaram fagulhas de todas as cores, numa melodia que nos desunia do real e nos protegeu da dor que ia queimando os corpos dormentes. Ficamos horas a olhar para a fogueira. A respiração deu lugar a prolongados e redentores suspiros e finalmente adormecemos com um sorriso liberto e generoso na face.
Abri os olhos ao mesmo tempo que senti o tenebroso som a cavar-me os ouvidos. Esta era uma melodia definitivamente diferente, era cruelmente real e vinha do “despertador”… o tal que despertou a dor.
Remexemos as cinzas e lá estavam as cartas, os lenços, os jornais e, principalmente, o laço, já meio desatado. Tudo bem vivo e intacto. O fogo não desgastou essas imortais acendalhas, mas elas faiscaram a nossa pele, relampejaram a nossa mente, e as marcas eram visíveis.
E agora? – pensei eu.
E agora? – pensou ela.
Agora… é desatar o nó da garganta e, com as mesmas quatro mãos, reatar o nó do laço!

O brasido ainda se sente, mas o calor não é o mesmo.

Domingo, Janeiro 15, 2006

É ser verdadeiro...

É viver, é sentir que nem sempre aguento
É plantar, colher e cheirar a flor do desgosto
É tentar maquilhar a alma em sofrimento
Espalhando a lágrima que me humedece o rosto

É estar no leito e ter ânsia de adormecer
É fechar os olhos saboreando o salgado
É provar o mel do mais que certo querer
Receando o futuro, inquietamente parado

É escutar conselhos para seguir em frente
É cunhar ideias no meu pensamento
É ter certezas presentes na minha mente
Observando o “amo-te” ser levado pelo vento

É restaurar memórias do desejado futuro
É abrir o “eu” que tão bem conheces
É construir uma ponte em vez de um muro
Buscando resposta ás minhas preces

É ser ferido pelo inevitável espinho
É reconhecer que semeei o arbusto
É limpar o vermelho sangue com carinho
Admitindo que mereço tamanho susto

É ambicionar aquele sorriso eterno
É desejar estar perto de ti
É colar as emoções no caderno
Lendo-o mais tarde sabendo que te mereci

É perder a comodidade da ignorância
É sofrer por isso sabendo que me corrói
É não me resignar em última instância
Pois é amor verdadeiro e o sacrifício não dói…

É morrer em mim e renascer em ti
É ser amigo do amor... e saber que vivi!


Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

II

ainda bem que o virei a tempo senão.....
Foi sem dúvida uma tempestade.
É por estas e por outras que devemos seguir a rota e não o impulso da incerteza. Mas é também por estas que decobrimos novos mundos, experienciamos novos cheiros, cores, contornos e estórias.
- O arco iris. Há quanto tempo não via eu o arco-iris.... Sinceramente já não me lembro da última vez. ... azul, amarelo, verde.... lindo. É óbvio que o pote está ali. Óbvio!!!
- Está na hora de fazer mais umas milhas.

Mas aquela tempestade não me sai da cabeça.... senão fosse....

verdades mentirosas endiabradas

a vontade de um pássaro é a vontade de um cagado....
a forma é uma das partes do conteúdo... e
o conteúdo a parte da forma.

quem assim escreve, e até, talvez quem saiba, assim fale, do tudo nada percebe

estranha mente, que nada fala.

conteúdo e forma nada se conjugam e tudo namoram.

Nem sequer sou eu , e , talvez seja.
sei que consigo, em muitas partes não ser eu... e isso custa.
Custa bem mais que ser verdade e verdadeiro.

se fosse pena escreveria de caneta e verdade com sangue.

escrita endiabrada por travessuras de sentimentos e venturas.

adeus

Quinta-feira, Dezembro 08, 2005

Eu quero ser como o Bruce Lee

Em homenagem a essa grande arte que dá pelo nome de Kosho-Ryu Kenpo aqui vai:


Eu quero ser como o Bruce Lee
Dar pontapés em trivela
Partir uma janela
Sem ter pena de ti

Sigo o símbolo do dragão
Faço um gesto à escuteiro
Não gosto de armar confusão
Sou até um gajo ordeiro

Venho de mãos vazias
Procuro apenas a paz
Mas quem se meter comigo
Leva uma entrada por trás

Vou ao fundo da arte
Sou uma sombra na bruma
Estou em toda a parte
E em parte nenhuma

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

O brilho da esfera

…Até ao dia que pegou na esfera de metal que, de forma estúpida e inquietante, sempre lhe servira de pisa-papéis, ergueu-a e contemplou o reflexo que o sol brilhante fazia incidir em apenas um ponto; rodou o pequeno e gélido globo em todas as direcções possíveis com uma gulosa atenção na pequena porção radiante e, após tanto o movimentar, foi aquele brilho momentaneamente inerte que o despertou para a activa reflexão que tudo transformou.
Na impossibilidade de se soltar do tempo, transportou-se para um lugar de duração ilimitada onde a busca de explicações não o envelhecesse.
Foi a pairar nesse sítio distante e intemporal que observou o outro globo. Ignorantemente surpreendido, atentou que o mesmo sol que brilhava na esfera metálica reluzia também noutros sítios no preciso momento.
E eis que a luz o motivou:
- “Tenho de ambicionar esse brilho permanente, fugir do inevitável crepúsculo que diariamente me ensombra e procurar eternamente o apoio que me permitirá mover o mundo á minha maneira. Buscarei então esse eixo equidiferente ao outro que me trouxe uma vida tão ordinariamente inexplicável. Se o mundo pertence a um Deus, então peço-Lhe que mo empreste, pois, caso contrário, serei valente para Lho resgatar.”
Com apressada raiva, rasgou o revestimento altruísta que lhe envolveu a mente e lhe sabotou o corpo por tantos anos e abandonou-o nesse lugar remoto, retribuindo-lhe o mesmo destino ocioso que outrora viveu.

Olhou novamente para a esfera e a luz brilhante já não morava lá; no dia seguinte ele também não. Mas o brilho, esse... levou-o nos olhos.


Segunda-feira, Novembro 14, 2005

No conforto do silêncio, o murmúrio de uma vida desconfortável

Acordou em silêncio.
Sentou-se no rebordo do colchão húmido, coçou a cabeça oleosa com uma mão, enquanto, ao mesmo tempo e de forma sincronizada, coçava com prazer a virilha com a outra. Não pensava em nada, pois a cabeça, ainda subornada pelo rum da noite anterior, não deixava.
Em silêncio, canalizou as suas fracas forças para as pernas e, de seguida, deu aquele impulso que lhe permitiu ficar em pé. Desequilibrado, vestiu as calças de ganga já muito amolecidas e sentiu a pele de galinha motivada pelo frio do tecido; trajou a suja camisa de flanela que lhe irritava o tronco e enfiou os descuidados pés nas rijas e compressivas botas de couro que, simultaneamente, lhe entranhavam as unhas robustas e os largos joanetes.
Foi em silêncio que acendeu o primeiro cigarro do dia, cujo fumo lhe faiscou a garganta, detonou os pulmões e convulsivamente fez explodir uma tossidela prolongada.
Olhou-se ao espelho, em silêncio, sem a esperança de estar com bom aspecto e sorriu genuinamente, revelando os sobreviventes, mas quebrados, dentes amarelos e as debilitadas gengivas.
As suas mãos, calejadas e adormecidas, quase nem sentiram o frio da água utilizada para puxar o frágil cabelo para trás, fazendo soltar uma pesada gota que lhe percorreu as costas até ser ensopada pela flanela da camisa. Repetidamente, impedia com a manga os pingos que, de forma incessante, lhe escorriam do nariz.
Com afável resignação, sentiu a dor aguda que lhe travava a urina, enquanto roçava a palma da mão na barba cerrada.
O ácido da laranja gritou-lhe nas gretas das mãos enquanto ele, descontraído, engolia os gomos inteiros.
Deslizava pelo silêncio do lar, como uma pena desliza no ar sem se preocupar com o destino certo de cair no chão… e ser pisada.
… Até que espreitou a “outra” realidade pela janela e ouviu a chuva quebrar-lhe o silêncio. Abriu a porta de casa, saiu e aí sim… sentiu-se desconfortável.

Quarta-feira, Outubro 19, 2005

On the record

Nunca gostei de situacionistas. Aqueles gajos que dizem que o outro lhe disse, mas que o outro nega que tenha afirmado aquilo numa determinada ocasião.
Há dias, e algumas vezes neste passado mais recente, tenho-me deparado com situações do género. No trabalho, no crepúsculo de amigos e demais figurantes, etc. Põem-me palavras na boca, dizem que me ouviram dizer, mas não sabem a que horas, a que minutos, a que segundos. Só que me ouviram dizer algures. Uma das coisas poucas que tenho ainda a funcionar adequadamente é a memória. Se não me esqueço do que me fazem, também não me esqueço do que digo.
Não estou virado para conversas tipo João Pedro Gomes/António Feio. Tenho por meu fiel companheiro, um gravador Sony que já vai praí na geração 7G, e que utilizo diariamente apenas para exercer a profissão. Provavelmente, e nos tempos que correm, talvez tenha de o ligar em qualquer conversa da treta, para que depois não me chamem mentiroso.

Terça-feira, Outubro 18, 2005

Mind the gap...please

Há quem expresse, com todo o romântismo próprio do ser humano, que o amanhã será melhor. E um ontem melhor?!?,pergunto eu. Tendo em conta as várias teorias desses grandes filósofos, cientistas e demais pensadores/demagogos, a consequência é fruto de uma acção. Caso ela, acção, tenha ocorrido no passado e sido positiva, a consequência lógica será óbviamente mais positiva. Logo um amanhã será com toda a certeza...


Ontem:
A brisa entrou pela janela e nunca eu, pensei cheirá-la como a cheirei . Sinto-a fazer-me cócegas. Riu-me. Esta brisa é diferente... é intangivelmente bonita na sua forma. estou à vontade para passear as minhas mãos nos seus cabelos. acabo de ser sexualmente agarrado por um estímulo que alegremente me agrada. desejo controlar mas o desejo de ser controlado é superior.... bastante mais, diria eu. acabo por controlar a situação, e, fisgo a silhueta. estou imerso em loucura e confirmo a reciprocidade através dos olhos dela que não me largam. o sorriso maroto é, à luz dos sonhos mais eróticos, simplesmente fascinante . a boca,com fios de saliva, está no ponto excitadamente apetecível. seus seios riem-se e dirigem-se para mim como se dois ímans carnais, de uma forma transloucada, se unissem. a mão dela começa a descer e o elevador a subir. o espaço é pequeno para o espernear brutal. o tempo infinitivamente curto para cada penetração.


Hoje:
o despertador toca. olho-me ao espelho, disparo um sorriso e verto uma lágrima.

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

escuteito miRIm

Desvia tu...
Porquê eu? sempre tiveste mais força do que eu
afinal quem é o mais velho?
Mas tu já viste bem o tamanho daquilo? Além disso...
Tá calado ... vens agora com chantagens?
Nada disso .... mas sabes bem que
Tás a levar não tarda.... vou falar com os teus pais.
Está bem ...Está bem...

Queres apostar que ele não me arranca daqui
mas olha que eles são muita grandes
não passam de jovens... ainda muito verdinhos
ele está mesmo concentrado em tirar-te dai
vou só mexer-me um pouco para ele não desmotivar

não me digas ... eu não acredito... até uma libelinha....
cala-te... já está quase
quase quê? quase parada?
tu não me enerves... ttttooooouuuuuu qqquuuuuuuaaaasssseee
heheheh... qqquuuuaaaassssseeee ccccaaaannnnssssaaaadddddoooo


hehehhehe ele está mesmo a dar o tudo por tudo
aposto que o outro vai tentar
e vai passar a mesma vergonha certo?
claro que sim

desvia lá.... vou mostrar-te
espera espera
espero o quê? tenho coisas pra fazer... sai lá da frente
1 2 e terês

agora é este
vais deixá-lo?
de maneira nehuma

heheheh tanta conversa.... e nada
é pesado mas eeeuuuu ssssoooooouuuuu cccccaaaappppaaazzzz
sim sim
desisto é realmente muito pesado, nem o meu pai conseguiria


já reparas-te lá em baixo
no quê
naqueles dois? parecem aflitos, estão mais vermelhos que dois tomates
vamos lá ver o que se passa
claro... sentamo-nos ali e ....

heheheh
o que foi? estes heheh hihihih estes dois
o quê????? o quê???
estão heheh a fazer-me cócegas hihih com as patas heheh
mas tu tens cócegas??!?!!!!????
eu nunca heheh disse isto a ninguém heheh mas hihih vou ter que me mexer hiehiehi

tu viste aquilo... aqueles dois mexeram os calhaus...
eu não acredito.....
eu também não mas que.... se mexeram... ai isso mexeram



Eu sei que parece mais uma daquelas estórias da carochinha, com um sentido do género - "não é através da força que vais alcançar..." com um final moralizador. Apenas escrevi pelo prazer que me deu, em vos contar uma estória velhinha, verídica passada já não sei aonde..... palavra de escuteiro mirim. Sendo assim passo a apresentar:
Os dois elefantes - Kamboj e Gajendra
As duas rochas- Elops Saurus e Sarda Sarda
E os dois little birds amigos de longas aventuras- shuro palm e dippy

O meu bem haja....

Terça-feira, Setembro 13, 2005

O Rio Que Nos Separa.

Um sonho! – sei-o agora.

…Acordei a meio da noite ainda embriagado e turvo de emoções e, prontamente, liguei o candeeiro, criando desta forma um redentor escudo de luz que me libertou da escuridão. Senti-me tal como um servo ao ser desoprimido do seu senhor.

Eram tantas as vezes que te via na outra margem; eram tantas as vezes que desesperei, mantendo, numa esperança quase sempre inoportuna, uma bonita imagem dum porvir ora tão realmente desejado ora tão resignadamente abstracto. Um breve encontro era tudo o que desejava.

Aquela realidade era sempre a mesma: - o interminável curso de água, o silêncio a preto e branco, a distancia que nos separava em câmara lenta e um longínquo rosto que, apesar de embaciado e resoluto, era-me perfeitamente familiar.

Ninguém me ajudava e, inconformado, sabia que pouco dependia de mim. Sentia-me atado mas não via qualquer corda. Num acto de raiva estéril apelei a um desígnio divino, mesmo não sabendo de onde viria, apenas desejando que, com um cerrar de punho, a mão de um Deus desconhecido unisse as duas margens do rio e abreviasse o nosso caminho.

Olhei para o céu incolor e acompanhei o cair lento e aflitivo daquilo que me parecia ser uma folha branca.

Uma carta? – pensei.

Como se de um acaso planeado se tratasse, tinha entre mãos um envelope transparente que cobria uma folha desdobrada.

Porquê o envelope? – questionei-me.

Li: “Porquê sonhar?”

Quinta-feira, Setembro 01, 2005

Meu espelho eu

O que vês hoje para além do que não vias noutros rotineiros encontros? Sabes que me fitas melhor quanto mais perto de ti estou, não sabes? Acompanhas a minha diária jornada, retratas-me pelo meu invólucro, és solidário e parceiro mudo. Não me aconselhas mas fazes-me chegar a conclusões certas e erradas enquanto, incólume, gravas algures a natural chegada do franzido natural da pele, a partida de cabelo…

Mostras-me de onde venho enquanto me estendes um testemunho que não pedi. Viste-me triste, furioso, aflito, viste-me com dor também, mas quantas vezes não fixaste o distender dos meus lábios acompanhado pelo brilhante rasgar dos meus olhos, o branco dos meus dentes, o semblante dilatado – se “visses” a minha voz teria explicado o porquê.

Vês-me como ninguém mas não me conheces como outros.

Como, bocejo, defeco, urino, lavo-me, durmo, relaciono-me… Entristece-me o facto de veres apenas o animal. Encaixas somente a forma, parceiro.

Ainda não te conhecia e já acompanhavas os meus primeiros passos e choros, mas será que me escoltas nos meus últimos? – espero que sim… e que me reconheças.

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Come over my pride....

Adorava Cantar e Gritar-te o silêncio dos meus olhos, que choram, sem que o mundo saiba.... É UM PECADO.

mas PECADO MAIOR é aquele que não sente.
o formigueiro na barriga
e o desejo de te querer, e, querer sentir teu cheiro,
tocar na alma e sacear, em simultâneo, os seios
as pernas e o timbre do teu olhar.
Bonito o sorriso com que escrevo e pena tenho em o acabar.

Até gostava de poder dizer-te ... mas não posso....

Domingo, Junho 26, 2005

Agora sim... um belo dia!

Era um dia como os outros; o sol aquecia e fazia-se reflectir no arrefecido oceano, o vento roçava-me ligeiramente na orelha mas sem se ouvir, as ondas soltavam-se na areia e depressa se prendiam ao mar, ouvia as gaivotas sem as fixar…

-Está um rico dia, não? – despertou-me um simpático estranho.

-Sim, está um belo dia. – respondi, com desapego.

Lembro-me que estava triste; foi também num belo dia que vivi a morte de perto, que a natureza me engoliu o amor e me cuspiu um odioso luto, todavia a natureza mantinha-se inalterada, com a sua imortal beleza, com a sua revoltante indiferença… sem sinais de luto. Olhava em volta procurando indícios de mutilação mas com uma desacreditada vontade de punição; pensava na angústia que me crivou no coração… reparava em tudo menos na sua excelência, na sua cor, na sua vida. Eram tempos de luto; o negro feria-me os olhos semicerrados e entristecia-me a alma, mas era ele que conservava a memória do amor.

Concluí que a natureza não compreende em si o luto, contudo tem o poder de o provocar. Enjaulei o constrangimento, domei a revolta.

Cravei na areia o nome da minha saudade e para sempre o mar a levou. Ficou a doce memória…

Sei agora que ódio é sentimento que não terei mais; encontrei no desequilíbrio da natureza o meu equilíbrio, e agora sim - o sol aquece, o vento sopra, as ondas soltam-se e as gaivotas ouvem-se…

-Está um belo dia, não está amor?

-Sim paixão, está um grandioso dia.